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Abordagem
Orientada ao Problema para o projeto de sistemas de tecnologia da
informação para o auxílio às tarefas cognitivas complexas.
Marmaras
N. e Pavard B. (1999). Problem-Driven Approach to the Design of
Information Technology Systems Supporting Complex Cognitive Tasks.
Cognition,Technology &Work, (1999) 1:222-236, 1999 Springer-Verlag
London Limited.
Tradução:
Maria Cristina Palmer Lima Zamberlan
Revisão: Venétia Santos
Esse trabalho propõe uma estrutura metodológica
para o projeto e para a avaliação de sistemas de tecnologia da informação
para o auxílio às tarefas cognitivas complexas. O principal objetivo
dessa estrutura metodológica é possibilitar o projeto de sistemas:
- 1) à lidar com as dificuldades cognitivas encontradas pelos potenciais
usuários na execução de tarefas complexas de resolução de problemas;
2) à melhorar o desempenho dos seus potenciais usuários na resolução
de problemas; e 3) à ser compatível com a competência dos potenciais
usuários e com seus ambientes de trabalho.
Depois de uma pequena revisão dos problemas apresentados
hoje pelos sistemas disponíveis para o auxílio a tarefas cognitivas
complexas, indicaremos os fundamentos teóricos da metodologia proposta.
São eles a Análise Ergonômica do Trabalho AET, de
origem francesa, a engenharia cognitiva, a antropologia-etnometodologia
cognitiva, e a teoria da atividade.
No terceiro capítulo desse trabalho descrevemos
o modelo ergonômico genérico, que constitui um quadro de referência
útil, para a análise de situações de trabalho para as quais o sistema
tecnológico de informação foi proposto. No quarto capítulo descrevemos
a metodologia e, no quinto capítulo, apresentamos resumidamente
um estudo de caso no qual aplicamos essa metodologia. Na conclusão,
discutimos as diferenças entre o quadro metodológico proposto e
outras abordagens mais tradicionais. Finalmente, propomos futuros
desenvolvimentos para a abordagem orientada ao problema.
Palavras-chave: Análise da Atividade; Análise Cognitiva;
tarefas cognitivas complexas; Projeto centrado no usuário.
1 Introdução
Usamos o termo tarefa cognitiva complexa
para designar tarefas tais como o controle de tráfego, o diagnóstico
médico, o projeto , a gestão e o planejamento da produção, a programação
computadorizada. Todas essas tarefas tem algumas características
em comum, tanto ao nível cognitivo quanto ao nível dos ambientes
nos quais, e para os quais elas foram desenvolvidas.
Ao nível cognitivo, essas tarefas requerem diferentes
tipos de soluções de problemas tais como: -a tomada de decisões,
a diagnose e o planejamento; bem como atividades cognitivas complexas,
tais como: - a antecipação, a monitoração e a elaboração de cálculos
mentais. No que tange os sistemas nos quais, e para os quais essas
tarefas são desempenhadas, elas tem as seguintes características
em comum:
- elas são constituidas de muitos componentes e
fatores que se relacionam entre e si, que interagem e que mudam
de valor a cada momento.
- podem ocorrer eventos em momentos indeterminados
e a natureza do problema a ser resolvido pode mudar.
- Há incerteza quanto ao momento em que um ou mais
eventos podem ocorrer, e quanto à gravidade das mudanças que eles
podem trazer ao sistema de trabalho.
- Existem múltiplos objetivos quantitativos e qualitativos
a serem alcançados, freqüentemente conflitantes, entre os quais
não há uma hierarquia pré determinada.
- As tarefas podem impor severas restrições de
tempo aos operadores ; podem ocorrer erros humanos com graves
conseqüências ; e elaas podem ser arriscadas.
Podemos concluir, portanto, que a dificuldade das
tarefas cognitivas complexas são devidas tanto à complexidade do
processo cognitivo necessário à execução das tarefas quanto à complexidade
do ambiente dentro do qual e para o qual elas são executadas.
Existem vários sistemas tecnológicos de informação
desenvolvidos com o intuito de dar suporte às tarefas cognitivas
complexas. Suas denominações indicam também as tarefas para as quais
eles foram elaborados (por exemplo computer-aided design (CAD),
computer aided manufacturing (CAM), decision support systems (DSS)
ou a tecnologia da informação utilizada para o seu desenvolvimento
(por exemplo, sistemas especialistas, knowledge-based systems, hipertexto).
Embora tais sistemas sejam hoje bastante disseminados em diferentes
contextos de trabalho, coloca-se em questão a efetividade do auxílio
oferecido por muitos deles nas fase mais importantes e difíceis
das tarefas para as quais eles foram elaborados. Questina-se ainda,
em que momento eles realmente apresentam uma efetiva usabilidade.
Por exemplo, os sistemas CAD não dão suporte às fases iniciais do
projeto, quando ocorrem as atividades de conceituação e de criatividade.
Além disso, como observou Lebehar (1986), o uso de sistemas CAD
requer a introdução de imposições dimensionais (métricas). Isso
requer que o arquiteto tenha que considerar essas imposições métricas
desde o início do processo projetual, do que resulta a adoção de
soluções menos interessantes ou diversas revisões, que ampliam o
tempo e o esforço na execução de projetos. Observações semelhantes
foram realizadas por Hacker (1997) para o uso de sistemas CAD no
âmbito do projeto de engenharia. Esse autor coloca que as fases
iniciais do processo de projeto :-a identificação dos objetivos
e a busca de princípios para soluções de problemas, não podem ser
auxiliadas pelos sistemas computacionais hoje existentes.
Muitos motivos contribuem para o fracasso dos sistemas
tecnológicos de informação em relação a um efetivo auxílio às tarefas
cognitivas complexas. Em primeiro lugar, a maior parte desses sistemas
tecnológicos de informação, adotaram na sua elaboração uma abordagem
focada na tecnologia, onde o projeto dos sistemas é orientado mais
pelos avanços da tecnologia da informação e por modelos teórico/formais
e técnicos dentro do domínio de aplicação, do que pelos problemas
e dificuldades reais encontrados pelas pessoas que resolvem problemas
utilizando esses sistemas. Em segundo lugar, muitos desses sistemas
foram desenvolvidos tomando como base o paradigma da prótese,
cujo escopo principal é aplicar a tecnologia da computação para
desenvolver máquinas especialistas autônomas (stand-alone /unique)
que ofereçam alguma forma de resolução de problemas (Roth et al.
1987). Em terceiro lugar, os aspectos cognitivos dos especialistas
humanos para os quais esses sistemas são dirigidos são considerados
inadequados. Mais especificamente, a semântica utilizada pelos especialistas
num domínio e o modo pelo qual ele realmente resolve problemas complexos
e toma decisões dentro de limites e demandas colocadas pelo seu
ambiente de trabalho, são rejeitados (Marmaras et al. 1992, Roth
te al. 1987). Em outros casos, modelos cognitivos simplistas e teorias
normativas, a maior parte desenvolvidos a partir de estudos realizados
em situação de laboratório, são utilizados para o projeto desses
sistemas (Woods, 1992). Finalmente, o aspecto colaborativo de muitas
situações reais e a sua articulação com o trabalho individual freqüentemente
é pouco considerado. (Bannon, 1997a). Além disso, o que os antigos
gregos denominavam metis (ou seja, os elementos situados
da inteligência humana), que são desenvolvidos pelos especialistas
de um determinado domínio e dependem das demandas e das imposições
do seu ambiente de trabalho, bem como da sua educação e treinamento
específico, não pode ser utilizado quando se usam esses sistemas,
sob pena de resultar em ações errôneas. Em quarto lugar, o ambiente
dentro do qual o trabalho é desenvolvido também é considerado inadequado.
Se adota uma visão simplificadora do ambiente de trabalho, negando
a importância dos elementos na sua complexidade. Então, por exemplo,
no domínio do controle de processos, muitos sistemas pressupõem
componentes estáticos, com falhas únicas, o que revela uma extrema
simplificação das situações de diagnóstico, nas quais as pessoas
que resolvem problemas lidam com possibilidades de falhas múltiplas,
entendimentos errôneos de sinais e problemas de interação (Woods,
1992). Em outros casos, considera-se apenas o ambiente nominal de
trabalho, negligenciando, por exemplo, a organização não oficial
ou as situações degradadas.
Muitos autores no domínio da interação homem-máquina
(HCI) indicam que deve ser adotada uma abordagem diferente no projeto
dos sistemas tecnológicos de informação. Por exemplo, Fishhoff (1983)
enfatizou a necessidade da pesquisa comportamental, de modo a fornecer
subsídios ao projeto de sistemas, tomando como base situações da
vida real, ao invés de modelos teóricos. Kid e Cooper (1985) indicaram
que deveria se dar mais ênfase "à compatibilidade cognitiva
entre a representação e controle das estruturas empregadas pelo
sistema e pelo usuário". Woods e Hollnagel (1987) indicam que
a questão chave é "conceber, modelar, projetar e avaliar o
sistema cognitivo conjunto homem-máquina". Kornel (1987) menciona
a necessidade de identificar e adquirir "padrões de raciocínio",
particularmente "os tipos de raciocínio", usados num determinado
domínio. Carstersen e Smidth (1993) recomendam que para projetar
sistemas computacionais adequados, é necessário compreender profunda
e coerentemente os domínios onde os mesmos serão aplicados. Ye e
Salvendy (1993) afirmam que os sistemas tem que ser compatíveis
com os processos de tomada de decisão e com as estratégias dos usuários.
Apesar da necessidade expressa por diferentes abordagens
do projeto de sistemas de tecnologia da informação para o auxílio
a tarefas complexas, pouco foi realizado em termos de propostas
metodológicas apropriadas. Este trabalho busca apresentar um quadro
metodológico, indicando as fases para a análise das necessidades
e requisitos dos usuários, as especificações funcionais e a avaliação
de protótipos. No capítulo a seguir, apresentaremos os fundamentos
teóricos da metodologia. No terceiro capítulo do trabalho descrevemos
o modelo ergonômico genérico, que constitui o quadro de referência
útil para o analista da situação de trabalho para a qual está sendo
projetado o sistema tecnológico de informação. No quarto capítulo,
descrevemos a metodologia proposta. Finalmente, no quinto capítulo,
apresentamos um resumo da aplicação dessa metodologia.
2 - Fundamentos teóricos da metodologia
O quadro teórico proposto se inspirou na Análise
Ergonômica do Trabalho da ergonomia francesa (Wisner, 1995;
De Keyser, 1991; De Keyser et al., 1988). A Análise Ergonômica do
Trabalho vem de uma tradição disseminada há mais de quarenta anos.
A base para essa abordagem vem das contradições entre os estudos
experimentais e o que se observa nas situações reais de trabalho.
Ela conduziu os ergonomistas franceses a abandonar as situações
experimentais em laboratório e a fazer das situações reais de trabalho
o seu principal local de pesquisa. O ponto central da Análise Ergonômica
do Trabalho é o estudo da interação entre os operadores e o sistema
de trabalho por meio das atividades dos operadores, em todas a suas
formas: física, mental, de comunicação, etc. Analisando as atividades
e considerando, ao mesmo tempo, as características dos operadores
observados e os elementos do ambiente de trabalho e como eles são
apresentados e percebidos pelos operadores, podemos fazer emergir
as causa que levaram ao desempenho degradado e, partir disso, formular
as modificações necessárias.
Outro aspecto chave da Análise Ergonômica do Trabalho
são as semânticas da situação e a dimensão histórica do curso da
ação do operador (De Keyser, 1991; Thereau, 1992), bem como as distinções
entre trabalho real e trabalho prescrito e entre tarefa e atividade
(Leplat, 1990). Vários métodos e técnicas foram desenvolvidos e
utilizados para realizar a Análise Ergonômica do Trabalho (ver,
por exemplo, Wisner, 1995; Thereau, 1992; Guerin et al., 1991; Amalberti
et al. 1991).
Ao mesmo tempo esse quadro teórico compartilha bases
comuns com a engenharia cognitiva. A engenharia cognitiva
é uma ciência cognitiva aplicada, que lida com o conhecimento e
com técnicas da psicologia cognitiva e com disciplinas correlatas
para fornecer fundamentos para o projeto de sistemas pessoas-máquinas
(Woods and Roth 1988; Rasmussen, 1994, 1986). A engenharia cognitiva
estuda os comportamentos das pessoas que resolvem problemas, que
se confrontam com a complexidade ao longo de suas tarefas cotidianas.
Essa abordagem é ecológica, porque estuda o comportamento em universos
multidimensionais, abertos e não em universos delimitados, fechados,
típicos das situações de estudo em laboratório e das estações de
trabalho dos engenheiros. Dada essa perspectiva ecológica, o engenheiro
cognitivo é capaz de considerar o que conta com estímulo ou símbolo
efetivo para o agente humano, numa dada situação. Para isso, é necessário
uma análise semântica e pragmática das relações ambiente
agente cognitivo, dos objetivos / recursos do agente e das demandas
/ limitações do ambiente (Gibson, 1979; Dennet, 1982). A engenharia
cognitiva lida com o conteúdo e com a semântica do domínio em estudo.
O ponto focal da engenharia cognitiva não se situa apenas na análise
do conteúdo de um universo; se situa na mudança de comportamento
e, consequentemente, no desempenho desse universo. Essa é tanto
uma consideração prática, porque melhorar o desempenho ou reduzir
erros justifica o investimento do ponto de vista do universo em
questão, quanto teórica, na medida em que a habilidade de produzir
mudanças práticas no desempenho é o critério para demonstrar a compreensão
dos fatores envolvidos. Finalmente, a engenharia cognitiva é orientada
ao problema e restrita à ferramenta. Isso significa que ela visa
analisar o contexto da resolução de problemas e compreender as fontes,
tanto do bom quanto do mau desempenho, isto é, dos problemas cognitivos
a serem resolvidos ou dos desafios a serem enfrentados.
Um outro domínio com o qual a metodologia proposta
compartilha conceitos comuns é a antropologia cognitiva e com a
etnometodologia. Segundo Doughety (1985), a principal hipótese da
antropologia cognitiva é que a pessoa representa o que ela entendeu
a partir de experiências anteriores como conhecimento (profissional)
cultural, em diferentes formas. Esse conhecimento é re- utilizado
se a pessoa o percebe como pertinente para um contexto particular.
Tanto a representação, quanto a re- utilização reforçam a combinação
de experiências. O conhecimento cultural compreende também os elementos
da reorganização cognitiva e a criatividade observada no comportamento
e na compreensão. Consequentemente, o operador humano não pode ser
considerado como alguém que executa tarefas prescritas, de modo
mais acerto ou menos acertado, mas como um agente que cria permanentemente
a sua atividade, dependendo do que ele percebe e compreende, a partir
da situação real de trabalho com a qual ele se confronta (Wisner,
1995). O conceito de ação situada (Suchman, 1987) também
se relaciona com a etnometodologia. De acordo com esse conceito,
o curso da ação (o modo como a ação de desenvolve. N.T.), depende
principalmente das circunstâncias materiais e sociais. Sendo assim,
o que deve ser estudado é mais o modo como as circunstâncias foram
utilizadas para conceber e executar uma ação, do que abstrair a
ação do seu contexto e representa-la como um plano racional. Em
outras palavras, o cerne da questão é estudar o modo como alguém
produz e torna pertinente seus planos, ao invés de desenvolver uma
teoria da ação baseado numa teoria do planejamento (Decortis e Pavard,
1994).
Finalmente, a estrutura metodológica proposta compartilha
conceitos comuns com a teoria da atividade ou teoria da
atividade cultural-histórica (Kuutti, 1996; Nardi, 1996; Bannon,
1997b). O princípio básico da teoria da atividade envolve a orientação
ao objetivo, o conceito dual de internalização e externalização,
da mediação por meio de ferramentas, da estrutura hierárquica da
atividade e o desenvolvimento contínuo. O princípio da orientação
ao objetivo estabelece que os seres humanos vivem numa realidade
que é objetiva num sentido amplo; as coisas que constituem essa
realidade não tem somente propriedades que são consideradas objetivas
de acordo com as ciências da natureza, mas propriedades sócio -
culturalmente definidas. O conceito dual de internalização / externalização
destaca que as atividades internas (isto é, os processos mentais)
não podem ser compreendidos se forem analisados isoladamente das
atividades externas (isto é, da manipulação de objetivos reais),
porque há uma mútua transformação entre esses dois tipos de atividades.
Segundo o princípio da mediação por meio de ferramentas, essas
moldam a maneira como os seres humanos interagem com a realidade.
Além disso, as ferramentas geralmente refletem as experiências de
outras pessoas que buscaram resolver um problema similar anteriormente
e que inventaram e modificaram as ferramentas de modo a torna-las
mais eficientes. (grifo da tradutora)
Essa experiência se acumula nas propriedades estruturais
das ferramentas, bem como no conhecimento sobre como as ferramentas
podem ser utilizadas. As ferramentas são criadas e transformadas
durante o desenvolvimento da própria atividade e levam com elas
uma cultura particular. Sendo assim o uso de ferramentas é um meio
de acumulação e de transmissão de conhecimento social. Ela influencia
não somente o comportamento externo, mas também o funcionamento
mental dos indivíduos. As ferramentas expandem as nossas possibilidades
de manipular e de transformar os objetivos e, ao mesmo tempo, os
objetivos são percebidos e manipulados dentro das limitações colocadas
pelas ferramentas. Sendo assim as ferramentas de mediação tanto
tem a função de ampliar possibilidades quanto restringi-las. Finalmente,
as ferramentas nunca são utilizadas de modo isolado, mas moldadas
pelo contexto social e cultural no qual são utilizadas (grifo
da tradutora). A estrutura hierárquica dos princípios da
atividade descrevem um esquema em três níveis. De acordo com esse
esquema, as atividades são movidas por motivos (isto é, as principais
metas que são os objetivos de toda aquela atividade) e são executadas
por meio de certas ações que são direcionadas pelas metas. As metas,
por sua vez, são implementadas por meio de certas operações (isto
é, processos conscientes e automáticos). Finalmente, o princípio
de desenvolvimento contínuo estabelece que a interação dos seres
humanos com a realidade deve ser analisada no contexto do desenvolvimento.
De acordo com esse princípio, todas as práticas são resultado de
um certo desenvolvimento histórico sob certas condições e como processos
em continua transformação e desenvolvimento. Isso explica porque
os métodos básicos de pesquisa na teoria da atividade não são os
tradicionais experimentos de laboratório, mas se denominam "experimentos
formativos", o que combina a participação ativa com o monitoramento
das mudanças nos estágios de desenvolvimento do objeto de estudo.

3 Modelo Ergonômico Genérico
A metodologia proposta para o projeto e avaliação
dos sistemas de tecnologia da informação para auxílio às tarefas
cognitivas complexas utiliza o seguinte modelo ergonômico genérico
(MEG), como estrutura de base. O MEG descreve, de um modo genérico,
a situação de trabalho para a qual o sistema foi desenvolvido e
orientado. Esse modelo consiste de três componentes principais:
o operador, o sistema de trabalho (ST) e o ambiente do sistema de
trabalho (AST).
O ST é o sistema dentro do qual e para o qual o
trabalho do operador é executado. Ele consiste do:
- sistema tecnológico, compreendendo as máquinas,
as ferramentas, as interfaces homem computador, etc;
- o posto de trabalho, compreendendo os componentes
tais como cadeiras, superfícies de trabalho, bem como qualquer
outro elemento no espaço dentro do qual o trabalho é realizado;
- o ambiente físico, caracterizado pelo ruído,
iluminação, condições térmicas;
- o sistema organizacional e gerencial que determina
papéis, responsabilidades, regras de ação;
- as práticas e as políticas de sócio-econômicas
seguidas;
- os co-operadores, isto é os outros agentes humanos
com os quais o operador interage desenvolvendo a sua tarefa.
O ST determina as metas e as submetas a serem alcançadas,
os critérios para a sua execução bem sucedida, as restrições e as
demandas impostas ao operador e as condições sob as quais ele trabalha.
Ao mesmo tempo, os componentes do sistema de trabalho tem um papel
de possibilitar, auxiliar o desempenho da tarefa. Esse auxílio pode
ser oferecido, por exemplo, por meio de displays especialmente projetados
(que disponibilizam os sinais formais) ou por meio da co-operação,
de acordo com o sistema organizacional formal. Além disso, o auxílio
pode ser disponibilizado por meio de fontes de informação que não
foram especialmente projetadas com esse propósito (disponibilizando
sinais informais e usualmente não reconhecidos oficialmente), bem
como por meio da co-operação com outros operadores, além da organização
formal do trabalho (Marmaras, 1994).
Os componentes do sistema de trabalho podem ser
dinâmicos e modificáveis. Por exemplo, o sistema tecnológico de
uma planta de geração de energia é dinâmica, um funcionário de um
escritório pode modificar o arranjo do posto de trabalho e a gerência
pode decidir mudar a organização do trabalho. Os componentes do
sistema de trabalho são interligados. Por isso a mudança de um elemento
pode modificar os outros. Por exemplo, uma falha ou a degradação
do funcionamento de um sistema tecnológico pode modificar o ruído
do ambiente, bem com as tarefas a serem executadas pelos operadores.
Finalmente, os componentes do ST podem dificultar ou facilitar a
execução da tarefa. Por exemplo, o modo como o ambiente de trabalho
foi projetado pode aumentar ou diminuir a fadiga do operador, ou
pode tornar difícil a percepção de alguns sinais úteis, dificultando
a execução bem sucedida da tarefa.
Com Leplat (1990) podemos distinguir o ST prescrito
e o ST real. O primeiro é o ST concebido pelo projetista e determinado
pela organização. O segundo é o ST real, dentro do qual o trabalho
do operador é desenvolvido: as diferenças entre os dois STs pode
ser observada em todos os componentes do ST. Essas diferenças podem
ser devidas tanto à operação do ST em si mesmo (por exemplo, envelhecimento
do sistema tecnológico) quanto pelo esforço dos operadores para
adaptar o ST às demandas da tarefa e às suas características pessoais.
A organização do trabalho não oficial e as fontes não oficiais são
elementos do ST real que têm uma importância particular para a análise.
De fato, vários estudos mostraram que, em vários casos, a execução
bem sucedida da tarefa pode ser impossível ou muito difícil sem
a modificação dos elementos prescritos do ST, particularmente em
situações de trabalho muito intenso (por exemplo, Marmaras, 1992,
1994; Benchekroun et al. 1995). Finalmente, podemos considerar uma
terceira versão do ST: o ST interpretado, que é a maneira
pela qual o operador percebe, compreende, interpreta e usa os componentes
do ST. Essa versão do ST é portanto um elemento da competência do
operador.
O AST é o ambiente dentro do qual e para o qual
o ST opera. As condições do tempo para o controle de tráfego aéreo,
as demandas de mercado para o gestor de uma empresa, o cliente de
um arquiteto ou o paciente de um médico, ou o ambiente sócio econômico
no qual se desenvolve o trabalho, são exemplos do AST. O AST determina
as condições nas quais o ST é operado e coloca questões sobre o
que o operador deve responder por meio do ST. Essa demandas são
transmitidas ao operador direta ou indiretamente por meio do ST
através de meios como displays, instruções etc. Os projetistas (engenheiros,
ergonomistas, etc) os empresários e os operadores de um ST não podem,
em geral, modificar o AST. Por isso, além de responder às demandas
que ele coloca, o esforço deles também se dirige à adaptação do
ST às características e mudanças do AST e à neutralização dos elementos
que possam impedir a satisfação das demandas por ele colocadas.
Na maior parte dos casos a complexidade da tarefa
do operador é devida à complexidade tanto do ST quanto do AST, como
por exemplo no controle de uma planta de geração de energia ou no
controle do tráfego aéreo. Há, entretanto, casos tais como o projeto
das tarefas ou á diagnose médica, nos quais a complexidade das tarefas
é principalmente devida à complexidade do AST, mais do que em função
da complexidade do ST .
Na medida em que o operador é considerado, além
das suas características gerais (físicas, psicológicas e sociológicas)
é dada um importância particular às suas competências. O
termo competências é utilizado aqui para designar as estruturas
cognitivas nas quais se articulam todos os elementos que alguém
usa durante o desempenho de uma tarefa específica dentro de um sistema
e ambiente de trabalho específicos (Montmollin, 1984, 1991; Marmaras
et al. 1992) O conhecimento sobre o AST, sobre o funcionamento do
ST e as modificações que podem nele ser executadas, assim como as
representações mentais funcionais dos componentes do ST e do AST,
os esquemas estratégicos de planejamento das ações, e os conhecimentos
para ação contendo regras de tomadas de decisão (algumas vezes memorizados
como rotinas) , são exemplos de elementos de competência. Em outras
palavras, competências são capacidades específicas ou espertises
que os operadores desenvolvem e usam para responder às demandas
das tarefas, dentro de restrições impostas por ST e AST específicos.
O modo como um operador experiente interpreta o
ST e o AST, as fontes não oficiais de informação, que ele usa na
regulação específica das ações compensatórias de mudanças no ST
e no AST, bem como estratégias específicas para a resolução de problemas,
heurísticas e ciclos de regulação que ele utiliza para superar os
limites da memória durante situações extremas de trabalho, podem
ser atribuídas às suas competências. Ao mesmo tempo, decisões que
não ótimas e erros recorrentes podem ser considerados como insuficiência
de competência para responder às demandas da tarefa e para superar
as restrições impostas pelo ST ou pelo AST em situações específicas.
Durante o seu trabalho o operador interage com o
ST de modo a responder às demandas e a lidar com as imposições colocadas
tanto pelo ST, quanto pelo AST. Essa interação é executada por meio
das atividades do operador, atividades tanto físicas quanto cognitivas.
A interação operador ST/AST é dialética. O operador interpreta
as demandas do ST/ AST e, usando suas competências, responde a elas.
Ao mesmo tempo, as ações do operador modificam o estado do ST. As
condições, restrições e auxílios do ST/ AST afetam o comportamento
e o desempenho do operador. Finalmente, essa interação afeta o estado
do operador (por exemplo, a evolução e o enriquecimento das suas
competências, o aumento da fadiga) e, conseqüentemente seu modo
de agir.
Os resultados dessa interação são os resultados
do trabalho. Eles estão relacionados tanto ao ST/AST quanto ao próprio
operador e podem ser positivos ou negativos. Boas decisões, bons
diagnósticos e uma alta produtividade são exemplos de resultados
positivos do trabalho relacionados ao AT/AST. O enriquecimento e
o aumento da competência do operador e a ausência de doenças ocupacionais
são exemplos de resultados positivos do trabalho relacionados ao
operador. Os erros humanos, um alto nível de estresse e doenças
ocupacionais são exemplos de resultados negativos do trabalho relacionados
ao operador.
Dado o caráter dinâmico dos três principais componentes
do MEG o operador, o ST e o AST bem como das suas
interações, devemos considerar o número de ciclos de regulações.
Esses ciclos podem ocorrer tanto ao nível informal, por exemplo
a propagação da informação por meio dos diferentes elementos do
MEG (Bressolle et al, 1995; Hutchins, 1990; Hutchins e Klausen,
1992), ou ao nível da ação. Naturalmente, os dois níveis de ocorrência
devem ser articulados. Devido ao ciclos de regulação, o estado dos
três componentes do MEG se alteram. São exemplos desse tipo de mudança
relativa ao operador: (i)a transição entre estados de desempenho
com base na competência, com base nas regras e com base em conhecimentos
(Rasmussen, 1986); (ii) alterações na hierarquia dos critérios para
a execução bem sucedida da tarefa; ou (iii) a transferência de responsabilidades.
Podemos distinguir três categorias de estados do
MEG: (1) estado de equilíbrio , geralmente se referindo a
situações de normalidade; estado de degradação controlada
; e (3) estado de degradação fora de controle.
Na primeira categoria de estado, o sistema operador/ST operara de
modo normal, respondendo às demandas do AST de modo ótimo. Na segunda
categoria de estado, podem ocorrer eventos que levem ao funcionamento
degradado de um, de dois ou dos três componentes do MEG. Exemplos
de tais eventos são um operador cansado, física e mentalmente, uma
falha no sistema tecnológico, a falta de um co-operador, ou o aumento
das demandas da tarefa. Apesar disso, o sistema operador/ST busca
compensar essa degradação e responde de modo ótimo ou sub-ótimo
às demandas do AST. Por exemplo, Sperandio (1980), estudando os
controladores de tráfego aéreo mostrou que na medida em que o volume
de tráfego a ser controlado aumentava, os operadores modificavam
a estratégia utilizada,que resultava em tomadas de decisão mais
arriscadas. As competências dos operadores são cruciais no gerenciamento
dessas situações. Na terceira categoria de estados, o estado de
degradação fora de controle, o sistema operador/ST não tem como
gerenciar a degradação dos seus componentes ou os eventos incomuns
que ocorrem no AST. Podem ocorrer quebras, acidentes ou catástrofes
nesses casos. É importante notar que pode ocorrer mais de uma situação
degradada ou mais de um distúrbio simultaneamente nos componentes
do MEG.
4 Estrutura Metodológica
Considerando o modelo ergonômico genérico, um sistema
de tecnologia da informação efetivo e de fácil utilização, cuja
meta seja dar suporte às tarefas cognitivas complexas deve:
- eliminar ou diminuir as restrições e amenizar
as demandas cognitivas impostas pelo ST e pelo AST;
- eliminar ou amenizar situações de desempenho degradadas
ou que tendam ao erro;
- ser compatível com as competências dos operadores
e eventualmente assegurar o seu enriquecimento;
- facilitar o uso das efetivas competências dos
operadores;
- ser compatível com o ST e AST reais e com o ST
e AST interpretados.
Para desenvolver esse sistema, devemos realizar
uma análise do trabalho no estágio inicial do processo de
projeto do sistema (usualmente chamada de análise das necessidades
dos usuários e análise das necessidades do sistema, na
metodologia do design centrado no usuário). A análise do trabalho
compreende três fases (FIG.2)
4. 1 - Pré- Análise
O objetivo da pré análise nessa fase é o de entender
o trabalho executado pelos usuários do futuro sistema tecnológico
de informação, as principais dificuldades por eles encontradas para
o desempenho das suas tarefas, bem como, os objetivos dos outros
envolvidos no sistema (projetistas, gerência) em relação ao sistema
a ser desenvolvido. Essa pré análise compreende:
- a identificação das principais tarefas executadas
pelos operadores (tanto as prescritas quanto as reais;
- a identificação dos principais componentes do
ST e do AST, e as principais características da sua complexidade;
- a análise histórica dos dados relativos aos resultados
indesejáveis, tais como erros humanos, decisões incorretas, acidentes,
erros sistemáticos e variabilidade na produção;
- levantamento das opiniões dos operadores sobre
as dificuldades por eles encontradas, das situações de emergência
e de risco e das fases de intensificação do trabalho;
- determinação dos objetivos e das expectativas
dos outros envolvidos (projetistas, gerência) em relação ao sistema
a ser desenvolvido.

4.2 Decisões Metodológicas
Depois da pré análise, o analista deve tomar uma
série de decisões em relação à principal análise (análise cogniftiva)
a ser executada. Mais concretamente, essas decisões são relativas
às tarefas e situações do ST e do AST e aos operadores a serem analisados,
bem como aos métodos e técnicas a serem utilizados (por exemplo,
observação direta em campo, métodos de elaboração de cenários e
simulações, técnicas de verbalização).
Para tomar essas decisões, o analista tem considera
os resultados da pré análise e o seu conhecimento/ experiência de
outras situações assemelhadas. As tarefa que demandam bastante no
nível cognitivo e que são difíceis para os operadores, ou que são
cruciais para a execução bem sucedida do trabalho, devem naturalmente
ser analisadas. As situações de trabalho, até serem analisadas,
podem ser tanto normais quanto podem ser situações de emergência.
Finalmente, a escolha dos métodos e técnicas a serem utilizadas
dependem de características específicas da situação e das atividades
dos operadores (veja análise da atividade abaixo), bem como dependem
de imposições práticas da situação (por exemplo, tempo e recursos
disponíveis, disponibilidade do operador, acesso ao campo).
4.3 Análise Cognitiva
A análise cognitiva é o núcleo da estrutura metodológica
proposta. O objetivo principal da análise cognitiva é identificar
(i) como os operadores experientes respondem às demandas impostas
pelo ST e pelo AST, dentro das restrições colocadas por eles; (ii)
como os operadores lidam com a complexidade do St e do AST, tanto
em situações normais quanto em situações degradadas, e (iii) quais
componentes do ST e do AST proporcionam um suporte cognitivo para
os operadores. Ao mesmo tempo, a análise cognitiva tem como meta
compreender as razões para os desempenhos bem sucedidos e para os
errôneos ou sub-ótimos por meio da explicitação das competências
operadores. Em outras palavras, a análise cognitiva é uma decomposição
hierárquica das metas, meios e restrições, com o objetivo de identificar
o que, como e porque do trabalho dos operadores.
Mais especificamente, essa análise deve identificar:
- as estratégias de resolução de problemas e de
regulação adotadas pelos operadores;
- os processos de resolução de problemas seguidos
- as metas e as sub - metas dos operadores em cada
estágio desse processo
- os sinais do ST e do AST utilizados (tanto os
oficiais quanto os não oficiais), as informações fornecidas por
eles e o significado que os operadores dão à eles;
- os ciclos de regulação utilizados
- os recursos do ST utilizados para diminuir a
carga de trabalho
- as causas dos desempenho errôneo ou sub-ótimo
dos operadores.
O principal método utilizado para a análise cognitiva
é a análise da atividade. Essa análise trata dos modos como
o operadores respondem as tarefas à eles impostas, ou aquelas que
desejam realizar, sendo as tarefas as metas a serem alcançadas dentro
de um conjunto de condições criadas pelo St e pelo AST (Leplat,
1990). A análise das atividades difere da tradicional análise da
tarefa. De fato, a análise da tarefa descreve e analisa as demandas
de desempenho colocadas ao elemento humano do sistema (Drury et
al.,1987; Kirwan e Ainsworth, 1992), e não ao modo específico como
o operador percebe e responde a essas demandas. Além disso, a análise
da atividade difere da análise do emprego (job analisys), que estabelece
um conjunto de atividades e regras de uma dada categoria profissional
ou posto ( Davis e Wacker, 1987; Drury et al., 1987), e não as atividades
de operadores específicos em ST e AST específicos. A análise da
atividade também é diferente da análise do emprego (job analisys)
em termos do detalhamento da descrição, sendo a análise da atividade
muito mais detalhada.
A análise da atividade é um processo que compreende
os seguintes estágios ( fig. 3):
- Observação sistemática e registro das operações
observáveis, em relação aos componentes envolvidos no St e no
AST. As atividades observadas podem ser movimentos do corpo e
posturas, movimento dos olhos, comunicações verbais e gestuais,
etc.
- Inferência dos processo e das atividades cognitivas.
- Formulação de hipóteses sobre as estratégias
cognitivas por meio da interpretação das suas atividades cognitivas,
as referenciando às demandas do ST e do AST, às restrições e auxílios,
bem como aos limites da cognição.
- Validação das hipóteses por meio da repetição
dos estágios (1) e (2), se necessário.
Para o levantamento dos dados no estágio 1 podem
ser utilizados registros em fitas de vídeo, ou simplesmente papel
e lápis ou outro instrumento especialmente (por exemplo, um registrador
do movimento dos olhos). Pode ser utilizado no estágio 2 a verbalização
das atividades feita de modo consecutivo (simultaneamente à execução
da atividade) ou de modo retrospectivo (logo em seguida do registro
da atividade) auxiliada pelos dados levantados no estágio 1. A análise
do que foi registrado (protocol analisys) é o principal método dos
estágios 2 e 3. Além das observações de campo, podem ser utilizados
métodos de elaboração de cenários e simulações, quando as observações
de campo forem difíceis ou impossíveis, por exemplo em situações
extremamente arriscadas de trabalho. Entretanto, antes de proceder
aos últimos dois métodos, é necessária uma análise suficientemente
consistente do St e do AST bem como um estudo histórico dos dados
relativos ao trabalho estudado, de modo a desenvolver cenários ou
simulações o mais próximo possível da realidade.
A análise da atividade deve ser executada em um
conjunto de situações de trabalho que representem tanto as situações
normais quanto as situações degradadas de todo o sistema (isto é,
o ST, o AST e o operador). Ao longo da pré análise se escolherão
as tarefas e as situações de trabalho que serão analisadas no primeiro
estágio. Na medida em que a análise da atividade continua, e o analista
constrói uma melhor imagem do caso em estudo, serão necessárias
novas análises. Além disso, é útil em muitos casos, realizar a análise
comparativa dos operadores de diferentes níveis de experiência,
bem como de operadores igualmente experientes, mas que entretanto
apresentam desempenhos diferentes (especialistas e super especialistas),
de modo a identificara estratégias alternativas de resolução de
problemas que podem ser utilizadas numa dada situação (ver por exemplo,
Marmaras et al.1997).
As teorias e os modelos do comportamento e da cognição
humana oferecidos pela psicologia cognitiva, pela etnologia, pela
psicolinguística, pela psicologia organizacional ou pela filosofia
podem ser utilizados pelo analista para dar suporte às inferências
sobre as atividades cognitivas do operador e para formular as hipóteses
relativas aos elementos das suas competências. Podemos citar como
exemplos de tais modelos teóricos, e o seu eventual uso pelo analista
, os seguintes: a teoria de resolução humana de problemas de Newell
e Simon (1972), que pode ser utilizada pelo analista como estrutura
básica para inferir os processos cognitivos utilizados pelo operador
quando ele resolve problemas. A teoria da cognição distribuída de
Hutchins (1990,1992), que pode auxiliar o analista a identificar
os recursos do ST usados pelo operador para diminuir a carga de
trabalho. O modelo de tomadas de decisão em escala, de Rasmussen
(1986) pode ser usado para a interpretação dos diferentes processos
de diagnose observados. Finalmente, o modelo de erro humano de Reason
(1990) pode ser usado de modo a classificar e a explicar os eventuais
erros humanos que podem ocorrer. Entretanto essas teorias e modelos
possuem um valor mais hipotético do que normativo para o analista.

Eles constituem o conhecimento de base e auxiliam
a interpretação das atividades observáveis e a inferência das atividades
cognitivas. A análise das atividades pode confirmar esses modelos
(total ou parcialmente), pode enriquece-los, pode indicar os seus
limites ou fazer com que sejam rejeitados. Consequentemente, embora
o principal escopo da análise seja o projeto do sistema tecnológico
de informação para o suporte a tarefas cognitivas complexas, ela
pode fornecer importantes visões ao nível teórico.
Como podemos perceber, o papel dos operadores durante
as atividades e a explicitação das suas competências não pode ser
realizada sem a sua ativa participação. Consequentemente, é um pré
requisito para as atividades de análise, a apresentação clara do
escopo da análise aos operadores e a sua disponibilidade em contribuir.
Além disso, dado que a verbalização e a análise do discurso são
centrais para a metodologia proposta, os pré requisitos para o uso
dessas técnicas devem ser satisfeitos (ver, por exemplo, Ericsson
e Simon,1984 e Sanderson et al. 1989 para essas técnicas e pré requisitos
para o seu uso).
4.4 Resultados da Análise
do Trabalho e seu uso
A análise do trabalho permite o desenvolvimento
de um modelo funcional do trabalho estudado. Esse modelo
consiste de três sub modelos que interagem dialéticamente: (1) o
modelo do AST; (2) o modelo do ST; e (3) o modelo cognitivo do operador
ou modelos de competência.
Mais especificamente, o modelo funcional:
A descreve as restrições e as demandas cognitivas
colocadas pelos operadores e explica as dificuldades cognitivas
por eles encontradas. As restrições as demandas cognitivas podem
ser:
- metas múltiplas e critérios que competem entre
si para a execução bem sucedida da tarefa;
- numerosos objetivos que o operador tem que monitorar,
controlar e atuar sobre;
- informações em grande volume, com apresentação
inadequada e algumas vezes incertas que o operador tem que tratar;
- operações mentais em grande volume ou de grande
complexidade que o operador tem que executar;
- falta de tempo suficiente para executar essas
operações.
B identifica as situações nas quais o desempenho
do operador é ou pode vir a ser ineficaz, e as causas dessa ineficácia.
São exemplos de causas como essas:
- restrições cognitivas e demandas que vão além
das competências do operador;
- não utilização de estratégias de regulação e
de resolução de problemas usadas em situações normais;
- as estratégias acima se tornam ineficazes nessas
situações;
C identifica as situações propensas ao erro
e as causas dos erros humanos ou tendências cognitivas. São exemplos
de causas como essas:
- inadequação na apresentação ou falta das informações
necessárias(inadequação no que tange a forma, o local ou o tempo
para a apresentação);
- a organização do trabalho não é apropriada;
- o projeto do posto de trabalho não é apropriado;
- o conhecimento do operador é insuficiente ou
inadequado;
D descreve os principais elementos das competências
do operador e determina suas fraquezas e seus pontos fortes;
E descreve os recursos do ambiente utilizados
como suporte aos processos cognitivos.
Baseado em 1, 2 e 3, pode-se determinar e especificar
as situações e as tarefas para as quais é desejável o suporte cognitivo
e os meios de como oferecer esse suporte (a identificação das necessidades
dos usuários e as especificações para a funcionalidade desse sistema).
Essa investigação pode ser feita respondendo a questões tais como:
- qual outra informação pode ser útil aos operadores
?
- há uma forma mais apropriada para apresentar
a informação já fornecida e uma nova informação ?
- é possível aumentar a confiabilidade da informação
?
- é possível facilitar a busca de informações ?
Como ?
- podemos facilitar a execução das atividades cognitivas
complexas ? como ?
- podemos promover e facilitar o uso de estratégias
mais eficazes de resolução de problemas e tomadas de decisão ?
Como ?
- podemos oferecer suportes que diminuam a carga
mental de trabalho e que atenuem o desempenho degradado ? como
?
- podemos oferecer suportes que possibilitem a
diminuição de ocorrências de erros humanos ? como ?
São exemplos de possíveis funções de um sistema
para auxiliar tarefas cognitivas complexas os auxílios à memória
dos usuários, os auxílios computacionais, os auxílios à comunicação,
os auxílios que evitem tendências cognitivas, os suportes que possibilitem
visualizar ou tornar concreto o que for abstrato, o auxílio para
formar uma melhor representação global da situação com a qual se
está lidando, o suporte para o planejamento das ações e o suporte
para avaliar decisões alternativas. Segue-se então à seleção das
informações tecnológicas apropriadas que possibilitem as funções
e os auxílios necessários.
Baseado em 4 e 5, podemos especificar as principais
características da interface homem computador, garantindo
a compatibilidade com as competências dos operadores. O modo como
os objetivos da tarefa são representados pelo sistema, o tipo de
diálogo homem- computador a ser utilizado, os procedimentos a serem
propostos e os elementos genéricos ou particularizáveis do sistema
são exemplos de interfaces homem- computador que podem ser especificados
utilizando os dados levantados.
Nessa fase é necessária uma estreita co-operação
com especialistas em tecnologia da informação bem como com aqueles
que tomam as decisões sobre o projeto para:
- examinar quais das funções desejáveis para o
sistema a ser projetado podem ser suportadas pela tecnologia da
informação disponível;
- examinar quais das características desejáveis
da interface homem computador podem ser elaboradas;
- decidir as prioridades do sistema a ser projetado
e as suas funções específicas.
4.5 Avaliação do Sistema
Além da identificação das necessidades dos usuários,
da especificação da funcionalidade do sistema e das características
das interfaces homem - computador, o modelo funcional que se delineou
a partir da análise do trabalho também pode ser usado no estágio
de avaliação do sistema de informação em desenvolvimento.
A avaliação do sistema pode ser realizada em duas
fases. Numa primeira fase podem ser feitas avaliação de soluções
alternativas de projeto, baseadas em simulações e sem o auxílio
dos futuros usuários. Mais especificamente, esse tipo de avaliação
requer: (1) a simulação dos três sub modelos, isto é do modelo do
AST, do modelo do ST e do modelo cognitivo do operador; (2) a simulação
soluções técnicas alternativas para as funções do futuro sistema
e das interfaces homem computador ; e (3) o desenvolvimento
de alguns cenários representativos de possíveis estados do AST e
ST. Fazendo funcionar todo o sistema simulado para esses cenários,
podemos verificar:
- a efetividade das soluções alternativas de projeto,
em relação ao grau em que elas eliminam ou atenuam as restrições
cognitivas e as demandas do AST e do ST bem como em que grau elas
eliminam ou atenuam situações que tendem ao erro;
- a compatibilidade entre as soluções alternativas
de projeto e as competências dos operadores, checando por exemplo,
se as soluções alternativas restringem o uso efetivo das estratégias
de resolução de problemas, de regulação e de ciclos de controle
(control loops);
- os eventuais limites dos suportes oferecidos
pelas solução alternativas de projeto em relação aos diferentes
possíveis estados do AST e do ST.
Ao final dessa avaliação baseada em simulações,
podemos desenvolver um protótipo do sistema com soluções técnicas
mais promissoras. A avaliação desse protótipo por uma amostra dos
futuros usuários constitui uma segunda fase do sistema de avaliação.
Mais uma vez, a avaliação deve tomar como base os cenários representativos
de possíveis estados do AST e do ST (tanto normais quanto de emergência).
Além disso, para a avaliação da efetividade do sistema e da compatibilidade
do sistema com a compet6encia dos especialistas, nessa fase da avaliação
nós também podemos:
- identificar as mudanças no ST existente que resultará
da introdução do novo sistema;
- inferir possíveis conseqüências negativas/indesejáveis
dessas mudanças nos processos de resolução de problemas realmente
seguidos pelos especialistas naquele domínio;
- determinar as modificações necessárias no ST
de trabalho existente de modo a eliminar as conseqüências negativas
citadas acima.
Finalmente, essa fase da avaliação pode oferecer
as informações necessárias para quem projeta um programa de treinamento
eficiente, manuais de uso e auxílios on-line.
A avaliação em duas fases como a estabelecida acima
serve para diminuir os ciclos de avaliação com os futuros usuários
e para testar soluções alternativas de projeto nos estágios iniciais
do desenvolvimento do sistema. O custo do desenvolvimento do sistema
portanto diminui, ao mesmo tempo em que se garante uma efetiva avaliação.
5 Um exemplo
Para demonstrar a estrutura metodológica proposta,
resumimos nessa seção uma pesquisa executada nas fases iniciais
do desenvolvimento de um sistema de tecnologia da informação, para
dar suporte ao alto escalão gerencial responsável pelo planejamento
das tarefas em empresas de pequeno à médio porte (Laios et al,1992;
Marmaras et al. 1992). Naturalmente, dado que a estrutura metodológica
busca ser genérica, esse estudo de caso demonstra somente certos
aspectos da metodologia.
As atividades de planejamento das tarefas num alto
nível gerencial, geralmente se referem ao planejamento estratégico
ou corporativo, envolvendo uma série de processos cognitivos
que precedem ou que conduzem a importantes tomadas de decisão sobre
os caminhos futuros da companhia. Os resultados do planejamento
gerencial englobam: (i) as estratégias, que constituem as
decisões de alto nível, que influenciam a longo prazo a companhia;
(ii) as táticas, que são estratégias não nível mais baixo,
políticas ou ações; e (iii) os planos de ação , que determinam
detalhadamente os cursos de ação para o futuro.
Em grandes companhias, o planejamento estratégico
é um processo interativo, longa e altamente formalizado envolvendo
muitos diretores e gerentes em vários níveis. Ao contrário, em pequenas
companhias o diretor proprietário é o único ator e fonte de
informação nas questões relativas ao planejamento. O planejamento
é um processo cognitivo individual sem as características formais
de uma grande empresa.
Os elementos que afetam o planejamento das decisões
são os estados passado, presente e futuro do ambiente externo da
empresa (AST do diretor) correlacionado ao passado, presente e futuro
do seu ambiente interno (ST do diretor). Esses elementos podem ser
interpretados pelo diretor com ameaças e oportunidades no mercado
(ambiente externo). O planejamento efetivo das decisões pode neutralizar
as ameaças do ambiente externo e explorar as oportunidades, considerando
os pontos fortes e os pontos fracos da companhia. Ao mesmo tempo.,
o planejamento efetivo das decisões pode fortalecer os pontos fortes
e enfraquecer os pontos fracos.
Durante a pré análise, foi realizada a revisão da
literatura relativa ao planejamento gerencial bem como realizados
três estudos de caso, de modo a identificar os principais componentes
do AST e do ST bem como as restrições típicas mais importantes nas
situações de planejamento gerencial. As principais restrições identificadas
foram:
- Complexidade / multiplicidade de fatores:
os ambientes externo e interno de um empresa podem ser descritos
por numerosos fatores que se relacionam entre si, fatores que
portanto interagem. As demandas do mercado, o tipo e a intensidade
da competição, a situação sócio- econômica, o mercado de trabalho
e a tecnologia são exemplos dos fatores do ambiente externo. A
qualidade dos produtos, a tecnologia utilizada, os índices de
mercado, os canais de distribuição e a posição financeira são
exemplos de fatores do ambiente interno.
- Mudanças / imprevisibilidade:o universo
no qual a empresa opera está em constante mutação, Muitas mudanças
que ocorrem no ambiente externo e no ambiente interno da empresa
são imprevisíveis ou de difícil previsão. Essa imprevisibilidade
é relativa tanto ao momento em que a mudança vai ocorrer quanto
à importância da mudança. Geralmente as informações disponíveis
em relação ao estado de evolução do ambiente externo e interno são
limitadas. A direção, por isso, enfrenta um grande grau de incerteza.
- Conhecimento limitado em relação ao impacto
final do planejamento das ações e decisões. Por exemplo, qual será
o aumento das vendas resultante de uma campanha publicitária que
custou X , e qual será o aumento das vendas resultante da melhoria
do design do produto que custou Y ?
- Relações entre metas e decisões : as decisões
planejadas para alcançar uma determinada meta podem frustar
ainda que temporariamente outras determinadas metas. Por
exemplo, a renovação dos equipamentos de produção com o objetivo
de aumentar a qualidade do produto podem ir de encontro às metas
de aumentar o lucro durante alguns anos.
- Riscos relacionados às decisões planejadas:
os possíveis resultados das decisões planejadas são de grande
importância para o futuro da empresa. Decisões incorretas podem
colocar a empresa em risco, levando geralmente a perdas financeiras
importantes.
Antes de realizar a análise cognitiva, foram realizadas
entrevistas estruturadas com os diretores de 60 pequenas e médias
empresas (com, no máximo, 150 empregados). O objetivo principal
da entrevista estruturada foi o de coletar dados relativos à taxionomia
envolvida no tipo de tarefa executada pelos diretores de acordo
com o ramo de negócios, de acordo com fatores internos à empresa
e ao ambiente, bem como em relação às características pessoais.
Em outras palavras, o objetivo da entrevista estruturada foi o de
identificar as diferentes situações nas quais ocorria o planejamento
empresarial.
A análise cognitiva do planejamento das decisões
empresariais foi elaborado usando o método de cenários. Esse método
foi selecionado em função das dificuldades envolvidas no observação
direta do processo de decisão empresarial nas situações reais; na
prática, algumas fases do processo de planejamento podem ser executadas
ao longo do ano, muitas vezes fora do ambiente de trabalho do empresário
e, naturalmente, apenas na mente do empresário.
O cenário apresentava uma empresa hipotética, a
sua posição no mercado e as previsões segundo dois fatores externos:
o aumento da competição no mercado para dois ou três tipos de produto
produzidos pela empresa e um pequeno aumento na demanda de mercado.
As características da empresa e o seu ambiente externo foram abstratos
a um grau tal que permitisse ao empresário criar associações com
o seu próprio ambiente de trabalho e portanto usar as suas competências
de planejamento já desenvolvidas. Por exemplo, o cenário não especificava
o tipo de produto produzido pela empresa hipotética, os métodos
e os sistemas de informação utilizados, as estratégias e táticas
normalmente adotadas pela empresa. O conhecimento adquirido a partir
dos estudos de caso realizados durante a pré análise, bem como o
conhecimento adquirido a partir das entrevistas estruturadas foram
utilizados para desenvolver o cenário o mais próximo possível da
realidade.
As seções de elaboração de cenário, com vinte e
um empresários, foi organizada da seguinte maneira: primeiro, o
pesquisador explicava o escopo do experimento. Se solicitava ao
empresário que lesse a descrição do cenário, elaborada num texto
com duas páginas. Finalmente, solicitava-se ao empresário que sugerisse
que ações deveriam ser adotadas se ele fosse proprietário da empresa
hipotética. Solicitava-se, também, que ele especificasse a seqüência
temporal da implementação das ações que fosse adotar. Se colocavam
também outras informações sobre o cenário da empresa (por exemplo,
dados financeiros, análise dos custos e lucros alcançados, custos
de produção e de operação), no caso do empresário desejar usar essas
informações. A sessão de elaboração de cenário terminava quando
o empresário avisava ao pesquisador que já estava satisfeito com
a solução proposta, ou quando ele manifestava certeza suficiente
acerca dos resultados positivos das suas ações. Pedia-se ao empresário
que pensasse em voz alta, de modo a registrar e a realizar os cálculos
que ele necessitasse. Toda a sessão era registrada por meio de gravador
e selecionava-se uma cópia das anotações e cálculos realizados pelo
empresário.
A fitas das sessões de elaboração de cenários foram
transcritas e obtivemos assim 21 registros verbais de cenário. Esse
protocolos verbais foram analisados sistematicamente usando um esquema
de codificação com dez categorias. Os registros verbais codificados
indicavam os sucessivos estágios dos processo de tomada de decisão
adotados pelos empresários, e apresentavam a semântica contida em
cada estágio, por exemplo, o tipo de informação adquirida, a meta
específica a ser alcançada ou uma determinada tática .selecionada.
O resultado detalhado da análise dos registros verbais
podem se encontrados em Marmaras et al. (1992). A seguir, apresentamos
as principais conclusões extraídas da análise cognitiva, relativos
aos elementos das competências dos empresários dos empresários no
planejamento empresarial.
5.1 Geração Limitada de
Alternativas Táticas
Os empresários inicialmente não foram capazes de
gerar um conjunto mais amplo de alternativas táticas, que pudesse
ser avaliado de modo a selecionar a mais apropriada para a dada
situação. Entretanto, na medida em que eles obtinham algumas informações
e formulavam uma representação da situação, eles eram capazes de
gerar um, ainda limitado, conjunto de táticas que pudessem ser imediatamente
aplicadas. Esse curso de ação pode ser atribuído ao fato de que
os empresários possuíam um vasto repertório de experiências e de
soluções que estavam organizadas hierarquicamente na sua memória,
e que eram acessados mais por meio da recognição do que por meio
de uma busca consciente. Esse comportamento pode ser atribuído às
restrições advindas da complexidade do ambiente do planejamento
empresarial, ao conhecimento limitado com relação ao impacto das
decisões e ao risco relacionado a essas decisões. A primeira e a
segunda restrição tornavam difícil e demorado o comportamento no
qual o empresário tinha que considerar qualquer situação planejada
como nova, o que requeria a geração de todas as alternativas possíveis
a sua subsequente avaliação. A terceira restrição, provavelmente,
levava o empresário a adotar táticas já testadas. A geração limitada
de alternativas táticas, entretanto levava a adoção de práticas
ineficazes. Por exemplo, se a situação dada tinha alguma pequena
diferença em relação a anterior, isso levava a considerar a solução
anterior como inadequada. As conseqüências negativas podiam também
surgir em função do desenvolvimento limitado de soluções novas,
menos familiares. No caso do planejamento empresarial, as soluções
inovadoras e as saídas radicais podem ser de grande importância.
5.2 - Ciclos de ação / pensamento
Os empresários, depois de um determinado conjunto
de ações, colocaram que desejavam aguardar os primeiros resultados
das suas ações antes de realizar ações corretivas ou selecionar
e aplicar outras táticas. Esse comportamento dos empresários está
provavelmente relacionado às imposições que decorrem das mudanças
constantes e imprevisíveis dos seu ambiente externo e interno de
trabalho, ao seu conhecimento limitado em relação aos impactos das
decisões e ações planejadas, bem como em relação aos riscos decorrentes
das decisões planejadas. Esse elemento das competências do empresários
compensava, de algum modo, as possíveis conseqüências negativas
da situação anterior. Ou seja, as primeiras ações a serem realizadas
foram baseadas em experiências vividas em situações similares no
passado, mas a sua adequação seria avaliada depois dos primeiros
resultados. Desse modo, o empresário seria capaz de executar ações
corretivas. Entretanto, os ciclos comportamentais de ação / pensamento
poderiam levar à ações atrasadas, aumento dos custos ou perdas financeiras.
5.3 Uso limitado dos dados
e análise quantitativa
Os empresários evitaram especular sobre os dados
quantitativos financeiros ou previsão disponíveis e não fizeram
cálculos e projeções que possibilitassem avaliar as táticas selecionadas.
Ao contrário, como já foi mencionado, eles rapidamente apresentavam
idéias sobre o que fazer, e colocavam que, baseavam suas avaliações
e as suas ações futuras nos resultados concretos das suas primeiras
ações. Esse comportamento também pode ser atribuído às restrições
decorrentes da complexidade do ambiente de planejament ; às constantes
mudanças ; e à imprevisibilidade desse ambiente, bem como às interrelações
entre metas e decisões. Essas restrições tornaram a avaliação quantitativa
das táticas selecionadas difícil, se não impossível. As possíveis
consequências negativas desse comportamento, são que dados importantes
para o planejamento das decisões podem ser negligenciados durante
o processo de planejamento.
5.4 Falta de metas quantitativas
e avaliação
Os resultados da análise do trabalho sugerem
que os empresários geralmente não reúnem metas quantitativas
que constituirão o principal critério de seleção e avaliação das
suas ações. Ao contrário, o planejamento das suas ações parece ser
baseado principalmente na avaliação do estado de certos fatores
internos e externos, relativos ao seu ambiente de trabalho, e em
determinadas metas genéricas. As restrições envolvendo o planejamento
empresarial podem constituir a principal razão para esse comportamento.
Essa observação fornece evidências, dando suporte a visão crítica
de vários autores no domínio da ciência empresarial, com relação
à relevância dos modelos "orientados à metas" , e sugere
que o sistema a ser projetado não deve ser elaborado tomando como
base os métodos de planejamento empresarial baseado nesses modelos.
Tomando como base os resultados da análise cognitiva,
foi projetado um sistema de informação tecnológica para o auxílio
ao planejamento empresarial de pequenas e médias empresas. O sistema
tomou a forma de uma estrutura ativa para o suporte aos processo
cognitivo durante a acesso do estado dos fatores do ambiente, a
geração e seleção de estratégias e táticas genéricas, bem como para
a sua avaliação. Ao mesmo tempo, o sistema buscava restringir as
possíveis consequências negativas das competências de planejamento
empresarial. Mais especificamente, o sistema projetado, por meio
de telas e funções, fornecia o suporte do seguinte modo:
- Ele dava assistência ao empresário para a consideração
de mais dados durante o processo de planejamento, e para a identificação
de similaridades e diferenças entre a situação corrente com a situação
passada , por meio da apresentação extensa, catalogação dos fatores
internos e externos para o planejamento do ambiente, como o seu
estado interno e externo e solicitava ao empresário o seu estado
futuro ou a sua evolução.
- Ele enriquecia o repertório das possíveis decisões
planejadas esticadas na memória do empresário, apresentando uma
extensa catalogação de tais decisões e propondo estratégias e táticas
relevantes para uma dada situação.
- Ele dava suporte ao processo de pensar/agir, fornecendo
uma estrutura para a apresentação de informações relevantes, concernentes
ao estado dos fatores dos ambientes interno e externo nos ciclos
sucessivos de agir / pensar e para diferentes decisões planejadas
tomadas durante esses ciclos.
Na medida em que o procedimento de planejamento
proposto pelo sistema é elaborado, o primeiro estágio é a avaliação
dos estados passado, presente e futuro dos fatores ambientais, proposto
por alguns métodos de planejamento estratégico formal. Os próximos
estágios são a determinação de um conjunto de alternativas táticas
e a sua avaliação, usando critérios qualitativos, e opcionalmente
critérios quantitativos. Outros estágios relativos ao conjunto de
estratégias e metas genéricas são também incluídos. Entretanto,
é permitido um certo grau de liberdade em relação à ordem dos sistemas
acima mencionados, bem como à omissão de algum estágio. Embora tal
procedimento imponha um certo formalismo no processo de planejamento
empresarial (e isso é inevitável quando se utiliza um sistema de
tecnologia da informação), foi alcançado uma compatibilidade suficiente
com o processo empresarial de planejamento cognitivo identificado
na análise cognitiva.
Um protótipo do sistema projetado foi avaliado por
vários empresários de pequenas e médias empresas. Os empresários
avaliaram a funcionalidade e a usabilidade do sistema como muito
boa.
Como no domínio do planejamento empresarial, a estrutura
metodológica proposta foi considerada muito boa e aprovada, em termos
de avaliação e de usabilidade centrada no usuário, tanto no caso
das urgências médicas (Pavard et al. 1990; Pougés et al. 1994),
no domínio do controle numérico(CNC) de máquinas ferramentas programáveis
(Marmaras et al. 1997), quanto no controle de tráfego aéreo (Bresssole
et al. 1995).
6 - Epílogo
Muitos autores vem enfatizando a necessidade da
ergonomia desenvolver e melhorar a sua metodologia ( por exemplo,
Wilson et al. 1987; Karwowski 1991; Rasmussen 1994; Wisner 1995).
Este trabalho busca contribuir nessa direção. Para isso elaboramos
uma estrutura metodológica orientada ao problema para o projeto
de sistema de tecnologia da informação para auxílio às tarefas cognitivas
complexas.
A metodologia proposta é diferente da metodologia
convencional, que segue uma abordagem orientada à tecnologia
ou o paradigma da prótese. Na abordagem orientada ao problema,
os problemas reais e as dificuldades encontradas pelas pessoas que
resolvem problemas guiam o projeto do sistema. Na outra abordagem,
o que orienta a elaboração são os dados de tecnologia da informação
e técnicas e modelos teóricos e formais do domínio onde o mesmo
será aplicado. Além disso, os sistemas já projetados adotando a
metodologia proposta buscaram auxiliar os usuários, ao invés de
fornecer sistemas especialistas autônomos que formulam alguma solução
do problema.
Outra diferença da metodologia proposta em relação
à convencional, é a extensiva análise do trabalho executada nos
estágios iniciais do processo de projeto. Embora a análise do
trabalho proposta aumente os recursos necessários para estudo das
necessidades dos usuários e a análise dos requisitos dos usuários,
pode-se afirmar que ela garante o desenvolvimento do sistema de
tecnologia da informação : (i) chamando a atenção sobre as dificuldades
cognitivas encontradas pelos potenciais usuários nas tarefas de
resolução de problemas complexos; (ii) aumentando o potencial desempenho
do usuário na resolução de problemas (iii) alcançando a compatibilidade
entre as competências dos usuários e o ambiente de trabalho. Essa
compatibilidade permite que o usuário mantenha o total controle
do suporte para a resolução de problemas oferecido pelo sistema
e garante uma grande usabilidade. Além disso, a estrutura metodológica
proposta minimiza o risco de se ignorar os aspectos mais densos
e portanto difíceis , ou que tendam ao erro no trabalho alvo , diminuindo
o tempo e as interações nas fases da avaliação do sistema.
Podemos ressaltar dois aspectos para o futuro desenvolvimento
da abordagem orientada ao problema:
-O primeiro é relativo às decisões metodológicas
que o analista deve tomar antes de aplicar a metodologia proposta.
Essas decisões lidam, dentre outras questões, com os possíveis estados
do sistema de trabalho e com o ambiente do sistema de trabalho a
ser considerado, com o necessário detalhamento da análise das atividades,
e com o número de operadores experientes que devem participar da
pesquisa. Se espera que na medida em que se multipliquem os casos
de sistema desenvolvidos utilizando essa estrutura metodológica
isso facilitará e melhorará a qualidade das tomadas de decisão.
Além disso, ao se multiplicarem as análises do trabalho em situação
real, serão desenvolvidas novas e melhores teorias e modelos de
ação situada para a resolução de problemas em universos complexos.
Se espera que essas teorias e modelos não apenas melhorem as tomadas
de decisão do analista, mas que também aliviem todo o processo de
projeto e avaliação dos sistemas de informação tecnológica ,para
auxílio às tarefas cognitivas complexas por meio da abordagem orientada
ao problema.
-O segundo aspecto é relativo aos resultados
da análise do trabalho. Mais trabalhos precisam ser realizados
de modo a modela-los e representa-los, facilitando assim a cooperação
entre ergonomistas , analistas e especialistas em ciência da computação
que desenvolvem sistemas. As técnicas e ferramentas tradicionais,
como a análise estruturada, modelam de um modo muito duro a riqueza
dos resultados da análise do trabalho e fornecem um universo conceitual
extremamente simplificado (Carstersen e Schmidt, 1993). Entretanto,
podem ser desenvolvidas técnicas novas e mais apropriadas de modo
a eliminar o hiato entre a representação utilizada tanto pelos ergonomistas
quanto pelos especialistas em ciências da computação.
Ver referencias
Bibliográficas
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