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O
Ponto de Vista da Complexidade no
Projeto Ergonômico
Autora: Maria Cristina Palmer
Lima Zamberlan
A questão da complexidade
pode ser abordada sob a ótica do projeto de ambientes e artefatos
de trabalho, trazendo para esta atividade de concepção
suas indagações e suas posturas básicas, especificamente
no que tange à oposição entre uma inteligibilidade
simplificadora e típica do pensamento clássico, a
que já aludimos anteriormente, e uma inteligibilidade complexa,
que denota a postura construtivista a que nos dispomos a argumentar
em prol.
Segundo VIDAL (1998), existem hoje
duas grandes correntes da ergonomia:
Ergonomia clássica:
incorporação dos conhecimentos sobre o ser humano
no projeto de interfaces, de metodologia acentuadamente experimental;
Identifica atributos e indica sua otimização localizada;
é mais disseminada nos EUA e nos países de língua
anglo-saxônica.
Ergonomia construtivista:
o estudo da atividade de trabalho com vistas à transformação
dos meios disponibilizados ao operador, mediante métodos
situados interpretativistas de natureza cognitiva, interacional
e compartilhável. É bastante disseminada na Europa,
especialmente nos países de língua francesa (França,
Bélgica, Suíça), mas tem tido seus maiores
desenvolvimentos teórico-conceituais nos países
nórdicos (Finlândia, Dinamarca e Suécia),
com uma curiosa disseminação nos EUA, através
das escolas de Palo Alto, Santa Barbara, Ohio e Boston.
A ergonomia contemporânea
construtivista é essencialmente centrada na OT: quem faz
o que, onde e, sobretudo, como o faz, questionando-se, ainda, se
é possível que se possa fazer melhor e mais seguro.
Já a ergonomia clássica, se orienta mais para a estruturação
e arranjos locais de artefatos que compõem o cenário
e a trama da atividade. Estas abordagens podem ser complementares,
desde que a abordagem contemporânea preceda e emoldure uma
intervenção em termos clássicos.
No que tange ao objeto, VIDAL (1998)
faz uma progressividade da episteme do campo ergonômico, assinalando
quatro objetos de estudo: postos de trabalho, situação
de trabalho, organização e contexto cultural (figura
2):
i) a ergonomia localizada
(Mc Cormick, 1971; Moraes, 1998), que trata da compreensão
do local de trabalho em seus aspectos físicos e perceptivos,
objetos que até aqui vem sendo tratados, mais freqüentemente,
na abordagem clássica, e cujo objetivo tem sido o da normatividade
da atividade humana;
ii) a ergonomia situada
(Guérin et al., 1991), que trata das relações
entre o posto de trabalho e as atividades que nele – ou a partir
dele – se engendram, objetos que tem tido um tratamento
tanto clássico – metodologia de job design – como
contemporâneo – metodologia de análise ergonômica
do trabalho – e cujo objetivo tem sido o da modelagem operante
da atividade de trabalho;
iii) a macroergonomia (Hendrick,
1991), que trata da adequação da tecnologia
à organização que a pratica, objeto que tem
tido um tratamento majoritariamente clássico e que hoje
começa a oferecer contribuições contemporâneas,
dentro do que os autores vem chamando de Organizational Design
and Management (ODAM). Suas finalidades tem sido a de empregar
as recomendações clássicas e incorporar as
modelagens contemporâneas no redesenho organizacional;
iv) a antropotecnologia
(Wisner, 1985, 1995) que trata das relações entre
propostas tecnológicas e contextos societais e tem sido
basicamente desenvolvida no enfoque contemporâneo, com a
finalidade de entender os contribuintes de sucesso ou fracasso
da modernização técnica e gerencial.

Figura 2: Campos epistêmicos
da ergonomia.
Iniciaremos esse percurso sob o
ponto de vista da complexidade pela abordagem de David Woods, que
apresenta críticas à abordagem simplificadora para
lidar com sistemas complexos. Depois passaremos à escola
de ergonomia que aborda, sob o ponto de vista da complexidade, a
construção e não a resolução
de problemas, que admite a simultaneidade e convergência de
fatores nessa construção.
A complexidade segundo David
Woods
Segundo Woods (1988), num ambiente
complexo, a resolução de problemas envolve a interação
entre três elementos básicos: o universo onde se deve
atuar, o agente que resolve problemas nesse universo, e as representações
externas do universo utilizadas por esse agente.
Cada elemento contribui para o desempenho
do agente num determinado campo de atividade. Se adotamos como ponto
de vista um dos vértices da figura 3 – representações
do problema, veremos que as representações dependem
das demandas cognitivas que serão impostas pelo universo
e das características de tratamento que o agente que resolve
os problemas vai utilizar. Na mesma figura, se o ponto de vista
for relativo ao universo, existem quatro características
com as quais devemos lidar, e que contribuem para os vários
tipos de demandas cognitivas.

Figura 3: Fatores que contribuem
para a complexidade e dificuldade na resolução de
problemas.
Segundo Woods (s.d.), para se investigar
a complexidade na resolução de problemas e as suas
conseqüências, podemos partir do vértice relativo
ao universo, na figura 3, onde há quatro dimensões
que definem as demandas cognitivas num determinado campo de atividade:
o dinamismo, o número de partes e a extensão das conexões
entre as partes ou entre as variáveis, a incerteza e o risco.
Todos os campos de atividade podem ser caracterizados em termos
do seu posicionamento ao longo dessas dimensões. Um universo
de resolução de um problema é simples se o
nível de exigência cognitiva é baixo em todas
as quatro dimensões, e é complexo se o nível
de exigência é alto nessas dimensões.
Quando um universo é dinâmico,
os incidentes na resolução de problemas se desenvolvem
ao longo do tempo e os eventos ocorrem em momentos indeterminados.
Há pressão em termos de tempo, as tarefas podem se
sobrepor, a natureza do problema a ser resolvido pode mudar, o monitoramento
pode ser contínuo e pode se alterar ao longo do tempo.
Quando um universo é constituído
por um grande número de partes altamente conectadas entre
si, uma falha pode ter várias conseqüências e
produzir vários distúrbios; um distúrbio pode
ser devido a várias causas e pode ter várias ligações;
podem também existir vários fins relevantes, que podem
competir ou serem impeditivos entre si; podem existir várias
tarefas simultâneas que demandam diferentes períodos
de tempo para a sua execução. As partes desse universo
podem ser, elas mesmas, objetos complexos.
Quando a incerteza é grande,
os dados disponíveis podem ser ambíguos, incompletos,
errôneos, fracos, pouco abrangentes e imprecisos em relação
ao estado desse universo; os valores que podem ser inferidos podem
variar de acordo com o contexto e não se pode prever com
exatidão os estados e os eventos futuros. A incerteza pode
estar relacionada a ocorrências externas, a interferências,
a mudanças nos parâmetros dessas interferências
ao longo do tempo, à sua não linearidade, à
influência de eventos ocorridos anteriormente e a medições
incorretas, que ocorrem em função de falhas em sensores
mal calibrados ou em função de registros incorretos.
Quando há risco, as conseqüências
das possíveis escolhas podem ter grandes custos. O risco
leva a lidar com situações raras, mas catastróficas,
e com situações mais freqüentes, mas menos custosas.
Quando a incerteza se soma ao risco, as situações
de escolha sob incerteza e risco aumentam.
O posicionamento de um campo de
atividade nessas dimensões determina as demandas e as situações
cognitivas que os agentes que resolvem problemas enfrentam num determinado
universo.
Os universos complexos têm
sido pouco estudados porque as pesquisas sobre a resolução
de problemas e tomadas de decisão avaliam situações
cujo nível é baixo em quase todas essas dimensões,
ou seja, os pesquisadores geralmente adotam uma estratégia
clássica para lidar com a complexidade – redefinem o sistema
que lhes interessa, de modo a eliminar, por definição,
a complexidade.
Segundo Woods (s.d., op. cit.),
hoje os métodos para o estudo dos processos de tomada de
decisão e resolução de problemas encontram-se
divididos entre cenários reais de pesquisa, com aspectos
ricos e complexos e cenários de laboratório, simplificados,
espartanos, que estudam separadamente cada fator envolvido na cognição.
A tática dominante para lidar com a complexidade ainda é
limitar a situação a ser considerada, focalizando
um aspecto isolado, separando-o do funcionamento simultâneo
dos outros aspectos com os quais ele está normalmente integrado.
De acordo com essa estratégia, pode-se estudar uma variável
ou um subconjunto do processo de cada vez e, então, pensar
como juntar, de novo, as partes. Essa abordagem é insuficiente
para tratar determinadas questões; é cada vez mais
necessário examinar e entender o comportamento humano diretamente
em situações complexas. Quando um conjunto mais amplo
de situações de resolução de problemas
enfrentado pelas pessoas for melhor compreendido será possível
projetar sistemas que auxiliem e melhorem o desempenho das pessoas.
Na figura 3, existem remissões
recíprocas entre as dimensões. As demandas cognitivas
de um determinado universo ocorrem em função do seu
estado em cada uma das quatro dimensões. Um universo que
é dinâmico e altamente conectado entre si não
é a soma de um universo que é apenas altamente dinâmico
e um universo que é apenas altamente conectado entre si.
Para Woods, é preciso assumir
o ponto de vista da pessoa na situação em que um incidente
se desenvolve ao longo do tempo, não o ponto de vista de
um observador onisciente.
É preciso considerar quais
dados estão disponíveis, em que ponto a pessoa se
encontra no processo de resolução de problemas e o
contexto do que aconteceu e do que pode acontecer dali para frente.
Uma das características da competência para lidar com
universos dinâmicos é a sensibilidade do operador na
detecção e na capacidade de resposta ao distúrbio
subseqüente, que é baseada no campo de visão
que ele tem do processo e na sua estratégia de monitoramento.
Nesses universos, a competência está na habilidade
em adaptar rotinas face às circunstâncias que mudam,
em busca de um fim.
As relações amplas
entre as partes aumentam a complexidade, porque uma falha numa parte
pode produzir distúrbios em pontos distantes, distantes tanto
a nível físico quanto funcional. A automação
é uma fonte poderosa de efeitos à distância.
Sistemas altamente interligados produzem oportunidades para que
existam fins que competem entre si, o que leva a situações
de risco.
A formulação e a reformulação
dos problemas é quase sempre subestimada, e os processos
de elaboração de diagnósticos são estudados
independentemente da coleta de evidências pelos operadores,
o que vem levando, segundo Woods, a que no mundo do projeto e da
pesquisa, a complexidade seja reduzida a questões que possam
ser facilmente administradas. Essa estratégia desloca a complexidade
para o operador, ao invés de fornecer a ele meios para lidar
com ela no contexto real da resolução de problemas.
A ergonomia da complexidade
Para Amalberti (1996), a noção
de complexidade tem duas vertentes: na primeira vertente ela pode
ser relativa à tarefa a ser realizada, às características
dessa tarefa e à competência necessária para
realiza-la; na segunda vertente ela pode ser relativa à dificuldade
percebida para tal. A complexidade é algo objetivo, externo
ao operador e pesa sobre ele. A dificuldade remete, ao contrário,
à execução do trabalho pelo operador num determinado
momento, numa determinada situação. Ela remete à
vivência pessoal ligada à utilização
do saber, à habilidade e ao controle dinâmico para
atender a um objetivo desejado pelo operador.
Um fator importante da complexidade,
para Amalberti, é o risco. O risco pode ser interno, subjetivo,
próprio a cada pessoa, e o risco pode ser externo, relacionado
à noção que o operador tem da sua proximidade
com o risco, dos graus de liberdade, das margens de manobra que
ele tem em relação a uma situação de
normalidade. Quanto menor o grau de liberdade para o operador, maior
o risco externo que ele julga haver (de Keyser, 1988; Amalberti,
1992; Flach, 1994).
Para fazer face à complexidade
é preciso uma cooperação permanente entre os
membros das equipes. As atividades dependem da organização
e dos dispositivos de comunicação disponíveis,
que permitam a construção de representações
compartilhadas e de ações coordenadas no tempo. Para
AMALBERTI, a cooperação depende da estrutura hierárquica
(dos fins que são estabelecidos, da distribuição
e organização do trabalho), da estrutura funcional
(cooperação entre os operadores, distribuição
dos trabalhos entre os membros da equipe), e da estrutura temporal
(que permite a coordenação).
Segundo Hutchins (1991, apud Amalberti,
op. cit.), uma característica essencial no desempenho de
uma equipe é a capacidade de propagação das
representações através de meios, humanos e
técnicos, para os atores do sistema. Por meio do movimento
da informação através do sistema se formam
expectativas e se modela a situação que, por sua vez,
organiza as ações individuais. Toda ruptura ou retardamento
nesse movimento de transmissão traz complexidade e aumenta
a possibilidade de falhas.
Essa questão é fundamental
na discussão sobre os meios hoje disponíveis nas salas
de controle centralizadas, nas refinarias estudadas.
Segundo Rasmussen e Lind (1981,
apud AMALBERTI, op. cit.), existem três fontes de complexidades
resultantes da construção dessa representação
mental da situação: a complexidade ligada à
representação que o operador faz do sistema, dos fins
a serem atingidos e dos seus próprios conhecimentos e habilidades;
a complexidade ligada ao compartilhamento da representação
entre os agentes envolvidos numa mesma situação; e
a complexidade ligada às atividades cognitivas que o operador
deve por em jogo para garantir a validade da sua representação
ao longo da execução do trabalho, o que faz com que
ele corra o risco de saturar o seu sistema cognitivo.
O tratamento da complexidade pelo
operador toma como base a sua possibilidade de elaborar planos e
antecipações face a um contexto dinâmico e pleno
de emergências. As estratégias para reduzir a complexidade,
durante a execução de uma ação, são
sempre limitadas quando não é mais possível
evitar a complexidade por meio da antecipação ou por
meio de um plano eficaz que preceda a execução.
O interesse da abordagem ergonômica
da atividade, como manifestação em um sistema complexo,
está em que a orientação dada ao projeto se
afasta de uma perspectiva linear e, portanto, simplificadora, para
uma inteligibilidade da simultaneidade e convergência de fatores,
constatações que engendraram a concepção
dos conceitos de projeto em engenharia simultânea, em inglês
denominada seletivamente de engenharia concorrente ou simultânea.
Finalizando, queremos assinalar
que a perspectiva da complexidade não significa deixar de
lado a usual técnica da engenharia, de operar através
de condicionantes e determinantes, para uma elegia irresponsável
ao acaso, desordem e caos. Nos dizeres de BINDÉ (1998):
La complexité
du devenir signifie simultanément que le fitur n’est
pas écrit à l’avance (la nouveauté, la
spontaneoté y ont leur place) et qu’il n’est pas complement
aleatoire (il est possible de preparer l’avenir a partir d’une
prevision qu’intégre la presence d’une inevitable part
d’incertitude). C’est entre les deux impasses d’une determinisme
absolue et d’une indetermination tout aussi absolue que s’élabore
la pensée du complexe.
Esta citação sintetiza
a preocupação essencial, a nosso ver, da ergonomia,
que não se estabelece numa postura prescritiva e normativa,
apriorística, como soam ser as práticas convencionais
de projetação, mas também não devem
ceder ao canto de sereia da variabilidade e dos encantos do trabalho
real (no sentido de que muitas variabilidades podem e devem ser
controladas e que a realidade do trabalho não se traduz de
forma incontinente numa verdade modelar e a ser reproduzida sem
apreciação crítica).
A ergonomia do ponto de vista da
complexidade busca instruir o projeto por meio do enriquecimento
da sua modelagem da atividade. A atividade é humana, em parte
consciente, finalizada (dirigida a um fim), evolui num determinado
contexto e é social e historicamente situada (VIDAL e BENCHEKROUN,
1997). No entanto, a simples compreensão desta colocação
filosófica não é suficiente para o agir projetual
e assim buscaremos, focar as questões mais específicas
do projeto de salas de controle.
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