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PROJETO ERGONÔMICO
DE CTI AS INOVAÇÕES NO PROJETO CONCEITUAL
Autores:
Marcos Knibel (Chefe do CTI da Santa Casa/ RJ, Diretor da CTI Consultoria
em Terapia Intensiva)
Venétia Santos ( Ergonomista, Diretora da Ergon Projetos)
Liane Flemming (Arquiteta, Consultora da Ergon Projetos)
Resumo
Neste artigo os autores introduzem o conceito de
Ergonomia na criação de uma Unidade de Tratamento Intensivo. Baseados
em sua experiência, após a construção de uma UTI na cidade do Rio
de Janeiro, eles descrevem soluções para vários problemas, não somente
em termos de adequação física, mas também influências psicológicas.
Deste modo, ao criarem melhores condições ambientais eles criaram
melhores condições de trabalho para a equipe, e consequentemente
influenciaram positivamente na recuperação dos pacientes.
Abstract
On this article, the authors introduce the concept
of Ergonomics in the ereation of Intensive Care Unit. Based on their
experience, afther building na I.C.U. in the city of Rio de Janeiro,
they describe solutions to several common problems of these centers,
not only in terms of physical structure adequacy, but also of its
psychological infuences. On this way, by providing on appropriate
environment, tthey create better working conditions to the staff,
as well as a suitable atmosphere to the patients recovery, and this,
much better results.
1. Introdução
A partir das necessidades impostas pelas grandes
guerras, por epidemias como a de poliomielite na Escandinávia ou
por grandes desastres criaram-se Centros de Tratamento específicos
para determinadas patologias graves, tais como: choques, envenenamentos
por gases, insuficiência respiratória em conseqüência por exemplo
da poliomielite.
Ao mesmo tempo foram montadas algumas unidades hospitalares
com fins específicos tais como os de recuperação pós anestésica.
Evolutivamente surgiram então Centros de Tratamento
Intensivo ( CTIs), segundo um conceito atual de unidade onde se
encontram todas as necessidades de equipamentos e de pessoal para
monitoração e tratamento de graves insuficiências orgânicas ou de
doenças com grande potencial de tornar insuficiente os órgãos que
estão comprometendo.
Inicialmente pelos idos de 1960, a grande preocupação
foi de tecnologia máxima, com freqüência transformando-se o doente
em mais uma peça da complicada engrenagem tecnológica e os CTIs
em um espaço totalmente ocupado por máquinas interligadas a uma
central de monitoração esquecendo-se todos das principais "dores"
nestes espaços as decorrentes da insensibilidade com os pacientes
e com o pessoal de saúde. Além disso tão grave era o problema referente
aos familiares que em muitas situações só voltaram a "tocar"
em seus parentes quando a situação se decidia, para o sentido positivo
ou negativo.
A percepção progressiva de que doentes graves não
podiam ser somente doentes graves, mais sim seres humanos doentes,
fez com que todos os profissionais de CTI passassem a se preocupar
com a humanização e com a otimização dos espaços de trabalho. A
Ergonomia vem em auxílio da humanização, e ela tem como finalidade
conceber e/ou transformar o trabalho de maneira a manter a integridade
da saúde dos operadores e atingir objetivos econômicos. Os ergonomistas
são profissionais que tem conhecimento sobre o funcionamento humano
e estão prontos a atuar nos processos projetuais de situações de
trabalho, interagindo na definição do mobiliário e ambiente físico
de trabalho.
O fundamento de toda a metodologia ergonômica está
na compreensão das atividades realizadas em cada situação de trabalho,
e na consideração do contexto e todas as questões que estão relacionadas
ao processo de transformação do trabalho, no qual participam diferentes
pessoas e pontos de vistas.
A metodologia de análise do trabalho considera o
funcionamento global da empresa, suas escolhas técnicas, organizacionais,
comerciais e sociais,
O diagnóstico realizado em uma situação de trabalho
é um ponto essencial da análise efetuada pelo ergonomista.
Ele é orientado pelas dificuldades, pelos problemas
identificados na análise da demanda e pelo funcionamento da empresa.
Ele sintetiza os resultados das observações, de dados levantados
e das explicações fornecidas pelos operadores. Ele determina os
fatores a considerar, para permitir a transformação da situação
de trabalho.
A análise da atividade na empresa revela aspectos
do trabalho freqüentemente desconhecidos.
Ela mostra a grande a grande variedade de atividades
que são realizadas pelos operadores para atingirem a produção esperada:
- regulação dos incidentes: escolha de informações pertinentes,
e controle das ações, raciocínios apropriados a cada momento, em
função de diversos acontecimentos.
Ela permite compreender como uma atividade pode
ser a origem dos gestos, dos esforços, das posturas, do deslocamento
e das comunicações dos operadores. Ela coloca em evidência as relações
entre as características próprias do trabalho e o funcionamento
dos operadores.
A análise da atividade questiona os métodos habitualmente
utilizados para definir os meios de produção, métodos que subestimam
as variações do trabalho, as imposições relacionadas às condições
de trabalho e a organização dos operadores. Ela permite levar em
conta características dos operadores na concepção de técnicas e
modos de organização do trabalho.
Logo que a prática da análise da atividade se difunde
na empresa, constata-se que, progressivamente, se instala uma nova
maneira de considerar o trabalho, os operadores não se sentem culpados
em relação aos seus erros e aos prejuízos a sua saúde. Eles mesmos
formulam propostas das suas situações de trabalho e podem justificar
suas propostas.
Os técnicos passam a observar e consultar os operadores
antes de fazerem suas escolhas técnicas e organizacionais; os responsáveis
pelos recursos humanos passam a preocupar-se com as competências
não explicitadas dos operadores e as consideram nos seus planos
de formação; os médicos do trabalho ampliam seu campo de ação; as
direções incorporam esses pontos de vista sobre o trabalho em sua
empresa.
2. Desenvolvimento
- Análise dos CTIs existentes
Objetivando projetar os novos CTIs da Neurologia da Beneficiência
Portuguesa/ RJ e Hospital Riomar-Barra/RJ, foi realizado um estudo
ergonômico durante dois meses no CTI da Santa Casa, e realizadas
várias visitas em outros CTIs do Rio de Janeiro.
- Metodologia
Foram feitas entrevistas com enfermeiras, médicas e pacientes,
assim como foi observado sistematicamente o trabalho nos CTIs
em várias turnos. Foram utilizadas técnicas reconhecidas pela
Ergonomia, tais quais: como verbalização, registro do conteúdo
das comunicações e análise da postura.
Os dados obtidos foram validados com a equipe
médica, que contribuiu ao longo do processo projetual dos novos
CTIs.
- Resultados
A partir dos levantamentos realizados verificou-se que os problemas
atuais dos CTIs são decorrentes da inadequação dos projetos arquitetônicos
e dos projetos de interior. Raros espaços são os espaços construídos,
que foram destinados especificamente para os CTIs, considerando
todas as necessidades de visualização, circulação e acesso visual
ao ambiente externo.
Os projetos de interior por sua vez não consideram os fatores
humanos e não se sustentam com a crescente informatização. De
acordo com os dados obtidos, os CTIs apresentam problemas que
vão desde a má circulação de macas, equipamentos, equipe médica
até o bloqueio visual dos monitores dos equipamentos e dos equipamentos
e dos pacientes.
A configuração de ambiente, frios e reflexivos, o planejamento
incorreto dos espaços de trabalho e iluminação do ambiente, interferem
no dia da equipe médica e na sua capacidade de trabalho, assim
como no bem estar dos pacientes.
- O projeto de um novo CTI
A partir dos resultados de estudo das situações de referência
( estudo em CTIs existentes) foram formalizados os parâmetros
para o projeto do novo CTI e desenvolvidos os estudos iniciais,
formalizados em modelo em escala. Estes modelos foram apresentados
para a equipe médica que contribuiu na evolução de todo o projeto.
A validação dos conceitos iniciais possibilitou a formalização
final de uma maquete do futuro CTI da Beneficência Portuguesa.
O desenvolvimento do projeto conceitual com a participação
de diversos profissionais foi fundamental para o sucesso do projeto,
a partir da análise de trabalho foram adotados os seguintes parâmetros
projetuais:
- Flexibilidade
- Liberação da circulação interna
- A expansão da área interna dos boxes
- A visualização interna dos monitores e pacientes
- A humanização do ambiente
- A adequação do ambiente físico
- O acondicionamento de materiais e equipamentos
- O planejamento de zonas anexas
a - Flexibilidade
Os CTIs atendem pessoas em diferentes estágios de
tratamento. Alguns solicitam cuidados especiais e devem ser isolados
visualmente dos outros pacientes. O ambiente deve possibilitar arranjos
diferenciados, assim como possibilidade de privacidade ou não. Os
boxes devem poder ser fechados ou completamente abertos ( figura
1 A e 1 B).
  
b - Liberação da circulação interna
Devido as intervenções ( em curtos períodos de tempo)
que devem ser realizadas em cada box, a circulação dentro da sala
deve ser considerada como prioritária. O crescente aumento do número
de equipamentos colabora para aumentar a obstrução da circulação
adjacente aos leitos, devido ao cruzamento de cabos e fios ao longo
da sala.
Para favorecer o deslocamento de equipamentos e da equipe médica,
foi necessário definir um corredor independente atrás dos leitos,
viabilizado graças ao projeto de um braço extensor que eleva os
fios e libera a circulação entre a parede e os leitos ( figura 2
e 3).
  
c - A expansão da área interna dos boxes
A viabilidade econômica de um CTI está diretamente
relacionada ao aproveitamento da área existente, e conseqüentemente
a inclusão do maior número de leitos possível. A restrição da área
de cada box passa então a ser um problema. A solução deste problema
levou a criação do conceito de expansão do box. A expansão da área
interna do box é necessária, quando é realizada uma intervenção
médica no próprio box.
Como as intervenções não são feitas simultaneamente
em todos os boxes; a área do box no qual será feita a intervenção,
pode crescer, graças ao deslocamento de suas divisórias em direção
aos boxes vizinhos.
d - A visualização interna
O controle da evolução do paciente exige a visualização
do monitores e de outros aparelhos além dos próprios pacientes.
Em qualquer parte do CTI deve ser possível visualizar os monitores
de cada box. Para isto é necessário manter uma certa transparência
das divisórias do leito, e planejar corretamente os ângulos de visualização.
e - A humanização do ambiente
Em relação aos dados levantados a partir do estudo
de campo verificou-se a influência da estética do ambiente, no bem-estar
geral dos pacientes e da equipe médica.
Os relatos de pacientes evidenciam a necessidade
de considerar o teto como sendo o ponto mais importante de visualização
dos pacientes. Alguns deles revelaram, que contavam o número de
furos no teto de eucatex perfurado ou a quantidade de imperfeições
do teto para se distraírem.
A partir destes dados, a proposta em um novo CTI
era a de tratar graficamente e com cores o teto. Em uma experiência
inédita, foi projetado o teto do Hospital Riomar, que é formado
por uma combinação de cores que estabelecem um movimento no teto
( figura 4) e da Beneficência ( figura 4 A) .
Ainda algumas melhorias para humanização do ambiente
foram previstas: a inclusão de monitor de TV em cada box, a inclusão
de música ambiente e iluminação independente nos boxes e sua personalização
( cada box possui um painel de formica no qual podem ser introduzidas,
fotos, santinhos e outras imagens).
f- Adequação do ambiente a automatização
O controle dos monitores dos equipamentos e o uso
de computadores demandam um projeto especial de ambiente, no qual
os reflexos devem ser evitados. É necessário planejar uma boa repartição
das luminâncias da parede e do teto.
As cores das paredes e superfícies de trabalho,
assim como a definição do mobiliário para informática deve ser alvo
de grande atenção para evitar a fadiga visual e postural dos usuários.
g - O acondicionamento de materiais e equipamentos
O número crescente de equipamentos e toda a medição
e instrumentos necessários, requer áreas importantes, que devem
ser estrategicamente previstas e localizadas. No Hospital Riomar,
por exemplo, foram definidos dois depósitos para equipamentos distribuídos
ao longo da sala, assim como armários em cada box e armários na
zona de preparo.
O quantitativo dos armários tem uma influência na
organização do trabalho, assim como a distância dos depósitos de
equipamentos dos boxes.
h - O planejamento das áreas anexas
Em anexo a sala de tratamento é necessário planejar
os vestiários, a sala de recepção de parentes dos pacientes e expurgo.
O layout deve favorecer o fluxo das pessoas dentro do espaço de
trabalho. O fluxo de entrada e saída e circulação do pessoal no
CTI é que direciona a definição do layout, assim como a interdependência
da cada zona de trabalho.
3. Conclusão
A evolução e a transformação dos conceitos atuais
A atividade humana no trabalho está evoluindo e
logo os espaços de trabalho devem ser reformulados. Projetar uma
situação de trabalho hoje, envolve conhecimentos de diversas áreas.
Projetar corretamente significa provocar um trabalho conjunto, com
a participação de usuários, médicos, psicólogos, engenheiros e arquitetos.
A Ergonomia teve grande contribuição a partir da
análise do trabalho na definição do projeto conceitual detalhado
por outras equipes de projeto.
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