Limites da Metodologia Ergonômica/ Novos rumos

Por Engeström, Y. e Rasmussen, J.

A Ergonomia atravessa hoje grandes questionamentos e ajustes metodológicos para acompanhar o nível da evolução do trabalho humano nas últimas duas décadas. Primeiro, se coloca a questão da necessidade cada vez maior em se fazer um trabalho pró-ativo, de considerar o contexto das situações de trabalho, de abordar o trabalho dentro de uma escala macro e, sobretudo, conseguir atuar agora com os sistemas sócio-técnicos considerados em toda a sua complexidade, após o abandono dos paradigmas mecanicistas e simplificadores que regeram a ciência nas últimas décadas.

Em publicação na Ergonomics volume 43/julho 200 - Ergonomics for the New Millwennium, dois importantes autores - Engeström, Y. e Rasmussen, J., falam de novas estruturas teóricas: a Teoria da Atividade e da necessidade de transdiciplinaridade para atuarmos com fatores humanos.

Engeström (2000) coloca que alguns limites do mundo do trabalho entraram em colapso e, de maneira correspondente, também a estrutura da concepção da pesquisa sobre o trabalho. Segundo o autor,atualmente, a persistente dicotomia entre os processos a nível micro e as estruturas macro é o ponto em questão. Estamos tomados por ondas de emergência e de adoção de conceitos como organização qualificante, conhecimento gerencial e capital social. Estes conceitos são híbridos e atravessam disciplinas como a economia, a sociologia, as ciências cognitivas e a ergonomia. Eles desenham noções psicológicas dos processos mentais e ainda abordam instituições e comunidades, mais do que indivíduos nas suas unidades de análise. Estes conceitos não são teorias em si mesmos .Eles são mais estimulados por pontos de encontros ecléticos entre diferentes abordagens teóricas e metodológicas. São poucas e, distanciadas entre si, as novas estruturas teóricas coerentes, que buscam superar a antiga dicotomia entre o macro e o micro, o mental e o material, o quantitativo e o qualitativo, a observação e a intervenção (Engestrom & Middleton 1996 apud Engestrom 2000). A Teoria da Atividade Cultural e Histórica é a nova estrutura que aponta para a transcendência destas dicotomias.

Segundo Rasmussen (2000), o avanço da tecnologia requer uma abordagem transdisciplinar dos problemas de fatores humanos, já que a sociedade está, cada vez mais, dinâmica e integrada com o uso extensivo da tecnologia da informação. Uma grande parte da população está fortemente influenciada pela informatização.Um efeito bem pronunciado deste desenvolvimento foi a diversificação do trabalho. Quando as rotinas elementares são automatizadas, o domínio do trabalho individual se amplia e as tarefas se deslocam para um nível cognitivo superior.A resolução de problemas, a improvisação e criatividade passam a ser ingredientes fundamentais do trabalho. Assim , hoje deve-se projetar sistemas nos quais os usuários possam formular com liberdade sua abordagem para uma situação particular, e selecionar o processo mental de acordo com as suas preferências individuais. O foco do projeto/design não é o de estabelecer procedimentos normativos para o trabalho.O projeto/design deve ter por objetivo criar um conjunto de recursos com o qual o operador possa trabalhar em liberdade, sem perder o apoio do sistema. A base do projeto/design de sistemas de suporte à decisão, que possibilite a adaptação e a resolução de problemas, será uma estrutura conceitual,adequada às exigências e recursos, ao invés de um conjunto de procedimentos. Neste sentido, a tradicional análise de tarefas, formulada em termos de seqüência de ações no trabalho, deve ser substituída pela análise do trabalho cognitivo, fornecendo um mapa do domínio do trabalho, e identificando as várias estratégias que o usuário pode utilizar para navegar neste domínio. Essa abordagem coloca novos desafios às profissões ligadas aos fatores humanos. As contribuições em relação aos fatores humanos devem agora ser cada vez mais pró-ativas, não só respondendo aos problemas observados, mas devem ser baseada nos modelos do comportamento humano adaptativo nos sistemas complexos e dinâmicos. Rasmussen coloca que hoje o maior problema é estabelecer condições para uma pesquisa transdisciplinar, orientada ao comportamento de sistemas sociotécnicos complexos. O problema é oriundo de dois fatores: - o atual dinamismo da sociedade, que trouxe dramáticas mudanças quanto às condições de trabalho e à necessidade de desenvolvimento de sistemas de suporte à decisão,e as restrições do ambiente de pesquisa acadêmica e conseqüentes dificuldades em envolver pesquisadores de disciplinas de ciências humanas e exatas.

 

 

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